Por mais de 40 anos, fez de Castanheira o seu lugar. Foi pioneiro não apenas por ter chegado cedo, mas por fincar raízes em uma terra ainda em construção — e ajudar a moldá-la.
Há partidas que não são apenas despedidas — são silêncios que se instalam na memória de uma cidade inteira.
Neste sábado, 28, Castanheira se despede de um de seus pioneiros: José Carvalho. Sergipano de origem, castanheirense de coração, homem de muitos nomes — J, Jotinha, Pimenta, e o carinhoso “Barbeirinho de Jesus”. Cada apelido revelava um pedaço de sua história, mas todos apontavam para aquilo que ele foi em essência: alguém que marcou vidas com simplicidade, trabalho e presença.
Por mais de 40 anos, fez de Castanheira o seu lugar. Foi pioneiro não apenas por ter chegado cedo, mas por fincar raízes em uma terra ainda em construção — e ajudar, à sua maneira, a moldá-la. Seu ofício, o de barbeiro, era mais do que profissão: era ponto de encontro, conversa, cuidado e amizade. Em sua cadeira, não se cortavam apenas cabelos — alinhavam-se histórias.
Entre os que hoje sentem profundamente sua partida está Jadir Bortoluzi, o “Negão”, amigo de mais de três décadas. Companheiros de jornadas e de caçadas, dividiram momentos que o tempo não apaga. Das tocaias aos “porcos do mato”, nasciam histórias e também sabores — pois J era mestre na arte de preparar a “carne da lua”, conduzindo cada etapa com paciência e talento, como quem entende que o tempo também é ingrediente.
“Estou muito sentido, era meu amigo, tínhamos uma amizade muito forte”, diz Jadir, com a voz embargada, compartilhando a dor ao lado da esposa. Ainda essa semana tinham combinado uma prosa para o domingo. "Não deu tempo!", destaca Jadir, de família pioneira no Novo Horizonte, onde J era frequentemente visto.
Nascido em Sergipe, no ano de 1946, ele deixa como familiar mais próxima sua filha, Jane de Carvalho, residente em São José dos Quatro Marcos. Mas, na ausência cotidiana dos laços de sangue, construiu uma família maior — a dos amigos, dos aprendizes, dos que herdaram não apenas sua técnica, mas sua forma de ser. O próprio Jacir é testemunha viva desse legado, pois desempenha o ofício que aprendeu do velho mestre.
Hoje, as lembranças ganham mais cor. E nelas, José é descrito como alguém cada vez mais raro: um amigo verdadeiro, daqueles que se constroem no dia a dia, na convivência simples, na palavra leve. “Era uma pessoa sempre feliz”, recorda um dos amigos. Até mesmo nos momentos difíceis, carregava consigo o humor que desarmava o peso da vida. “Sou uma bomba-relógio”, brincou certa vez com uma enfermeira, mesmo diante das limitações impostas pela saúde.
Nos últimos dias, sob os cuidados da Casa de Apoio da Secretaria Municipal de Assistência Social, apesar de ter residência no Bairro Santo Antônio, encontrou acolhimento — e, certamente, continuou a fazer o que sempre soube: contar histórias, repartir lembranças e deixar marcas invisíveis, mas profundas.
Seu antigo ponto, na esquina da Avenida Gílio Rezzieri com a 13 de Maio, já não está de pé. Mas aquilo que ele construiu ali permanece — não nas paredes, mas nas pessoas. Porque há homens que passam… e há aqueles que permanecem, mesmo depois da partida. Como escreveu o poeta: “Quem vive na memória dos que ficam, não conhece o fim — apenas muda de lugar.”
Hoje, José Carvalho muda de lugar. E deixa em Castanheira um vazio que só o tempo aprenderá a respeitar — e uma história que jamais será esquecida. Seu sepultamento acontece às 15 horas, no Cemitério Bom Jesus, depois das despedidas na Casa da Saudade.