Dona Maria não era mulher de esperar o tempo passar; ela o conduzia.
O café das 4h da manhã e o almoço servido antes das 9h eram os marcos temporais de uma vida dedicada ao servir; pioneira deixa um legado de 10 filhos e uma saudade que não cabe no relógio.
Em Castanheira, as madrugadas do Bairro Santo Antônio perderam um de seus brilhos mais constantes. Na Rua Avelino Sartori, o número 151 não terá mais aquela luz acesa antes do sol, sinalizando que o café de Dona Maria Luzia Correia da Conceição já estava pronto.
Aos 76 anos, essa pioneira, filha de Paraguaçu Paulista, que trocou a lida da Linha "Meia Dois" pelo ritmo da cidade, mas nunca abandonou os costumes da roça, partiu deixando um rastro de afeto e trabalho.
Dona Maria não era mulher de esperar o tempo passar; ela o conduzia. "Por volta das quatro da manhã já tinha café", recorda o filho caçula, Isaías. Esse vigor, herdado dos tempos em que chegou de Araputanga em 1985, manifestava-se na produção constante de sabão caseiro e no zelo por uma família que a partir de sua história de amor com o pioneiro Egidio Liberato da Conceição, que faleceu aos 91 anos, se multiplicou em dez filhos, 22 netos e 12 bisnetos.
A fragilidade da vida, por vezes, se esconde atrás de uma rotina vibrante. Milton, outro filho, carrega no celular a última prova dessa vitalidade: uma conversa às 13h41. Pouco mais de uma hora depois, o destino silenciou a guerreira que, mesmo após algumas quedas, insistia em ser útil.
"Não tem como não pensar com muito amor nesta mulher que sempre foi uma guerreira. O acolhimento dela era para todos", resume a neta Vanilda Ferreira, emocionada.
Para as filhas, como Edivania, o que fica é a imagem da mãe cuja maior preocupação era o bem-estar do próximo. Dona Maria Luzia foi o exemplo vivo de que a força não está na ausência de fragilidade, mas na insistência em cuidar.
O adeus final acontece nesta sexta-feira, 30, às 10 horas, na Casa da Saudade. As luzes da Rua Avelino Sartori podem até se apagar nesta madrugada, mas, como bem definem os familiares, os frutos das sementes que ela plantou continuarão sendo colhidos por gerações. Em Castanheira, a aurora agora terá um pouco menos de aroma de café, mas muito mais histórias de amor para contar.