No Sítio São José, entre o cheiro da terra molhada e o verde da “hortinha” que tanto cuidava, Maria Zilda transformou rotina em poesia.
Há vidas que passam pelo tempo… e há vidas que permanecem. Maria Zilda de Souza é dessas que não se despedem — apenas se eternizam na memória de quem teve o privilégio de conhecê-la. Foram 70 anos de uma história tecida com simplicidade, coragem e um amor que se expressava nas pequenas coisas, com muitos capítulos ao lado de seu saudoso companheiro, José Milton de Souza.
Nascida em Nova Cantu, no Paraná, trouxe consigo, junto aos pais Carlos Marcolino Senen e Tereza Barns Senen, e os irmãos, a essência de quem aprende cedo que viver é, antes de tudo, resistir. Integrante de uma grande família de migrantes - formada pelos pais e 12 irmãos - que marcaram a primeira década de Castanheira, seguiu, nos anos 80, o caminho dos pioneiros rumo a novas terras, onde fincou raízes e construiu não apenas uma casa, mas um legado.
No Sítio São José, no 2º Assentamento, no Vale do Seringal, entre o cheiro da terra molhada e o verde da “hortinha” que tanto cuidava, Maria Zilda transformou rotina em poesia. O chimarrão das manhãs não era apenas hábito — era ritual de afeto. O frango de panela não era apenas comida — era abraço servido à mesa. E as piadas… ah, as piadas eram sua maneira de lembrar ao mundo que, mesmo em meio às lutas, a alegria ainda podia florescer.
E ela lutou. Por dez anos, enfrentou a vida com limites que jamais foram maiores que sua leveza. Não perdeu o humor, não perdeu o brilho — não perdeu a essência. Como lembram suas filhas, Edicleia, Elizangela e Eliandra, que, mesmo entre lágrimas, encontraram forças para descrevê-la como uma mulher guerreira, que jamais deixou de sorrir e manter a fé.
Entre os familiares, Kamilly Cristina Senen da Silva, do corpo docente da Escola Maria Quitéria, guarda na memória as gargalhadas que iam além das piadas. “Até seus últimos dias foi assim”, recorda. O sobrinho Flábio Aleandro Senen ressalta o sorriso permanente, mesmo diante de uma década de limitações impostas pela enfermidade: “Só boas lembranças”, afirma, destacando seu exemplo como mãe e esposa. Já a cunhada Sueli Aparecida de Oliveira resume o sentimento de todos ao afirmar que a lembrança de uma mulher batalhadora será seu maior legado.
Neste domingo, dia 12, às 17h30, no Pronto Atendimento de Castanheira, Maria Zilda encerrou sua jornada terrena. Partiu com a mesma serenidade com que viveu: deixando marcas profundas em cada coração que tocou. Filhas, sobrinhos, amigos… todos carregam fragmentos dessa mulher que foi, ao mesmo tempo, força e ternura. Nas gargalhadas compartilhadas, nas histórias repetidas, no cuidado simples do dia a dia — ali está Maria Zilda, viva, presente, inesquecível.
Nesta segunda-feira, às 9 horas, na Casa da Saudade, acontece a despedida de seu corpo, que segue, logo após, para o Cemitério Bom Jesus. Mas não de sua história. Ela deixa cinco netos, uma bisneta… e uma herança que não se mede em bens, mas em amor. Porque, como escreveu o poeta Mário Quintana: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.” E Maria Zilda será sempre lembrada — com um sorriso.