Castanheira se despede de um de seus primeiros pioneiros
Castanheira amanheceu mais silenciosa nesta segunda-feira, 02. Partiu um daqueles homens que não apenas viveram a história do município — ajudaram a escrevê-la com as próprias mãos. Evandir Ricardo da Rosa, carinhosamente conhecido por Duca, fechou os olhos no mesmo horário em que, por décadas, iniciava o dia: ao nascer do sol, tempo sagrado da roda de chimarrão em família.
Nascido em Santo Ângelo, na terra dos pampas, trouxe no olhar a vastidão do Sul e, no coração, a coragem dos que atravessam fronteiras em busca de futuro. Chegou a Castanheira em 1980, quando a formação de um sítio começava no fio do machado e na força do braço. Eram tempos em que derrubar o mato significava plantar esperança.
Ao lado da esposa, Guilhermina Bogado da Rosa, de ascendência paraguaia, construiu mais que uma propriedade: edificou uma grande família. São 14 filhos, 17 netos e 8 bisnetos — raízes profundas espalhadas pelo mesmo chão que ele ajudou a preparar.
O primeiro endereço foi o Sítio Gaúcho, na Linha 01. Anos depois, já nas proximidades da Comunidade Nova Conquista, no 3º Assentamento, no Vale do Seringal, deu novamente o mesmo nome à nova morada. Gaúcho não era apenas um nome — era identidade, memória, pertencimento.
Em ambos os lugares, dedicou-se ao trabalho árduo para que nada faltasse aos filhos. E, se faltasse, faltava para ele primeiro. Como recorda o filho Adilson, nos tempos difíceis do início, chegou a deixar de comer para repartir o alimento com as crianças. “Até o fim foi assim dedicado!”, observa, lembrando que o pai tinha hábitos simples e amava um barranco de Rio e caçar.
A presença de Evandir era tão central que os dez filhos vivos permanecem morando ao seu redor, mantendo viva a tradição das lidas do campo e da convivência diária. A roda de chimarrão, logo ao amanhecer, tornou-se um ritual familiar — símbolo de união e partilha. Não por acaso, foi nesse mesmo horário que ele partiu, como se tivesse escolhido o momento mais seu para atravessar o horizonte.
“Foi um exemplo pra todos nós”, afirma a filha Dirce Bogado da Rosa, destacando a honestidade e a dedicação incansável do pai. Entre os netos, as lembranças também florescem. Maria Eduarda, a Duda, recorda as histórias contadas pelo avô — narrativas que transportavam todos para mundos imaginários nunca alcançados. “E era muito bom!”, resume, com a simplicidade de quem guarda tesouros na memória.
Nas horas que antecedem a despedida final, marcada para as 8h desta terça-feira, 03, na Casa da Saudade, o silêncio reverente fala alto. É o respeito a uma história rara “entre os viventes”, como dizem seus conterrâneos — homens que moldaram a terra e foram moldados por ela.
Evandir parte, mas deixa algo que não se mede em hectares nem em números: deixa exemplo. Às novas gerações, ensina que dignidade se constrói no trabalho honesto, que família é o maior patrimônio que alguém pode reunir, e que o verdadeiro legado não está apenas na terra conquistada, mas na união preservada ao redor da mesa — ou da cuia de chimarrão, ao romper de cada novo dia.