Para Castanheira, o achado acrescenta uma dimensão ainda pouco conhecida à história local.
Veículos com a identificação C-Nível despertam a curiosidade dos moradores e levam a uma descoberta que ajuda a contar uma história muito mais antiga do município
Quem circula pelas ruas e estradas de Castanheira nos últimos tempos provavelmente já reparou em algumas caminhonetes identificadas com o nome C-Nível. A presença dos veículos não passou despercebida. Afinal, o que uma empresa de energia estaria fazendo por aqui? A resposta envolve geração de energia, estudos ambientais, pesquisa e, surpreendentemente, vestígios de pessoas que viveram nesta região muito antes de Castanheira existir como município.
A C-Nível Energias é uma empresa brasileira que atua há mais de 30 anos no setor energético, com trabalhos voltados à inovação, tecnologia e alternativas sustentáveis. Em seu site, a empresa registra uma informação especialmente interessante para os castanheirenses: durante os trabalhos de pesquisa relacionados ao projeto da CGH Estrela Dalva, em Castanheira, foram realizadas atividades de arqueologia preventiva que resultaram na identificação de um sítio arqueológico denominado Ruwai.
Uma descoberta nas pedras
O achado está relacionado a três pontos localizados em um afloramento rochoso no leito de um rio, onde os pesquisadores identificaram polidores líticos fixos. São vestígios diretamente integrados à rocha granítica e que, segundo a interpretação arqueológica apresentada pela empresa, podem estar relacionados à produção ou manutenção de instrumentos feitos de pedra.
Entre as possibilidades estão ferramentas como machados, lâminas ou pilões. A localização junto ao rio também chama a atenção. Segundo a pesquisa, outros registros arqueológicos semelhantes já foram encontrados em ambientes fluviais, onde afloramentos de rocha e materiais disponíveis nas proximidades ofereciam condições favoráveis para técnicas utilizadas na fabricação e acabamento desses instrumentos.
Não foram encontrados, no entorno imediato, outros vestígios móveis que indicassem uma ocupação prolongada. Por isso, os pesquisadores consideram possível que o local tenha sido utilizado de maneira eventual, talvez durante deslocamentos ou atividades específicas.
Quem deixou essas marcas?
É justamente aí que a descoberta ganha importância. Aquilo que hoje pode parecer apenas uma marca na pedra pode representar uma pequena parte da história de grupos humanos que habitaram o território mato-grossense em período pré-colonial.
Essas populações conheciam o ambiente onde viviam, sabiam identificar matérias-primas adequadas e dominavam técnicas para trabalhar a pedra. O sítio Ruwai, portanto, não é apenas uma curiosidade arqueológica: é uma evidência que contribui para compreender melhor como diferentes sociedades humanas utilizaram e se relacionaram com o território antes dos registros históricos conhecidos.
Para Castanheira, o achado acrescenta uma dimensão ainda pouco conhecida à história local. Antes das estradas, das primeiras casas, das lavouras, dos pioneiros e da própria formação do município, outras pessoas já haviam passado por esta terra e deixado, ainda que discretamente, sinais de sua presença.
Energia que também preserva memória
A descoberta ocorreu dentro do trabalho de arqueologia preventiva, procedimento importante em projetos que envolvem intervenções no território. A finalidade é identificar possíveis patrimônios arqueológicos antes que sejam afetados pelas obras e atividades previstas.
No caso do Ruwai, a pesquisa permitiu registrar e estudar esses vestígios, contribuindo para ampliar o conhecimento científico sobre a ocupação humana da região. A própria C-Nível destaca que preservar locais como esse significa garantir que fragmentos da história brasileira permaneçam acessíveis às futuras gerações.
E talvez seja essa a parte mais interessante da história das caminhonetes que começaram a chamar a atenção pelas ruas de Castanheira.
Elas chegaram trazendo uma atividade ligada à energia e ao desenvolvimento, mas os trabalhos realizados pela empresa acabaram ajudando a revelar algo relacionado a um tempo muito mais distante: marcas deixadas na pedra por pessoas que viveram por estas terras muito antes de nós.
No fim das contas, a pergunta feita por quem viu os veículos da C-Nível circulando pelo município tinha uma resposta que ninguém talvez imaginasse: além de estudar o potencial energético da região, o trabalho também ajudou a descobrir e preservar um pequeno pedaço da memória mais antiga de Castanheira.