Em reportagem especial de 5 páginas, revista castanheirense registrou a saga da formação dos quatro assentamentos do Vale do Seringal.
Ao longo de suas 20 edições, a Revista Innovare News singularizou vários textos sobre a região do Vale do Seringal, em Castanheira, que reúne quatro pujantes assentamentos, com força importante na economia local, por meio da agricultura familiar.
A seguir destacamos um trecho da reportagem especial “A Epopéia dos Assentamentos”, de cinco páginas, da 7ª edição, de agosto de 2015, contendo uma narrativa de sua formação, com depoimentos de vários produtores rurais ligados à sua história.
“O coração de Castanheira”. Quando a professora Francisca Eliene Stefanes, popular “Pit”, define o que para ela significa a região dos Assentamentos no Vale do Seringal, os olhos de Francielly Dheinys de Souza brilham. Ela foi a primeira aluna da Escola na Nova Conquista, no 3º Assentamento, no ano de 1998.
Numa roda de conversa participada por Antônio Pereira, o Dilsinho, sua esposa, Wilma Pereira de Matos Nascimento, e a própria Francista, há um consenso: todos tem orgulho de morar na região, principalmente depois das profundas transformações ocorridas nas quatro regiões, conhecidas como Assentamentos I, II, III e IV, pelos administradores que sucederam o Dr. Jorge Luiz Arcos, o médico prefeito que em 06 de agosto de 1996 estimulou a ocupação da área, composta de parte da conhecida Fazenda Enco, então tomada por densas matas. Foi ele que articulou as primeiras ações voltadas para a acessibilidade.
O ex-vereador Ivan Justino de Oliveira fala com propriedade do assunto. Ele era um dos motoristas dos primeiros veículos a transportarem aqueles que seriam os pioneiros no Vale do Seringal. Incentivado por amigos do Bar de Rudi Wiesennhutter, referência de boa rosa no 1º Assentamento, lembra de alguns dos “passageiros” do caminhão caçamba cinza, da Prefeitura Municipal. Não sem antes citar que o prefeito o interpelou, antes da data histórica, perguntando se teria coragem de conduza-los, uma vez que o projeto de ocupação, baseado apenas na vontade comum daqueles cidadãos de ter um lugar para morar e reproduzir sonhos tinha seus riscos.
Animado com a ideia, não apenas conduziu aqueles e vários outros cidadãos, como também conviveu com todos no primeiro ponto da ocupação. “Marta, Marico, Abigail, Amadeu, Mário Zan, Inacio, Severino, Otávio, Toninho, Demazinho, Lucia, Jessé, Luis, Manoel do Boi, Zé Professor, Jaiminho, João Rosa” são alguns nos lembrados. Propositalmente um dos preservadores da tradição oral brinca, citando “Jacaré, Tiririca, Arara e Zé Minhoca”, personagens mais conhecidos por seus apelidos hilários.
Se existe uma ou outra discordância nas narrativas, são elementos comuns o fato de que as dificuldades iniciais foram muitas. “Era coisa bruta. Não tinha estrada. A gente aproveitava o caminho feito pelos caminhões de madeireiras. Não era fácil aguentar o pium”, destaca um dos pioneiros, que prefere o anonimato pela necessidade de um desabafo: “Muitos moradores do Assentamento foram ingratos com o Dr. Jorge”, argumentou, referindo-se a um pleito eleitoral É fato também que esses pioneiros tiveram bastante medo. Não das onças, que ainda eram vistas na região, mas de homens a serviço de opositores ao movimento. Falava-se muito que eles estariam indo na direção dos assentados, especialmente margeando o Rio Vermelho. Diante de tal possibilidade, que nunca se concretizou, eles se revezavam, armados, numa guarita improvisada.
Apesar dos desafios dos primeiros anos, a boa vontade de todos possibilitou avanços e conquistas. Aos poucos os barracos, a maioria de lona, foram dando lugar as primeiras casas; os caminheiros improvisados às primeiras estradas e as matas aos campos, onde o gado, hoje, é base da sustentação de mais de sete centenas de famílias.
Pós-scriptum: O Seu Rudi, citado no texto original, hoje reside com a esposa na Avenida dos Trabalhadores, na zona urbana de Castanheira. Ivan Justino, o Ivanzinho, também conhecido como Buda, faleceu recentemente.