Há histórias que pertencem às famílias. Outras, pelo que representam, acabam pertencendo também às cidades. A história de Zilda Calauro é uma dessas.
Quando o conceito de “guerreira” é atribuído a uma mulher ou a um homem, nem sempre a palavra traduz, de fato, aquilo que a vida exigiu. No caso de Zilda Calauro, porém, não há exagero. Aos 80 anos, que completa neste 10 de agosto, ela carrega na própria história as marcas de quem chegou a Castanheira quando praticamente nada existia e, com trabalho, coragem, honestidade e fé, ajudou a construir um pedaço da história do lugar.
Pioneira de uma cidade ainda em formação, Zilda enfrentou as dificuldades de um tempo em que não havia ruas, mercado, energia elétrica ou facilidades de transporte — e, mesmo assim, teve a ousadia de acreditar que era possível começar.
Neste final de semana, em momentos reservados à família, algumas dessas lembranças certamente voltarão à memória. Haverá sessão de fotos no Vale Verde, sob as lentes de Wesley Borges, e confraternização na Fazenda Preciosa, na linha Capixaba. E, enquanto a família celebra a vida de Zilda, Castanheira também pode celebrar a história de uma de suas pioneiras.
LEIA, A SEGUIR, A MATÉRIA COMPLETA.
Há histórias que pertencem às famílias. Outras, pelo que representam, acabam pertencendo também às cidades.
A história de Zilda Calauro é uma dessas.
Neste 10 de agosto, ela completa 80 anos. E talvez não exista maneira mais justa de marcar a data do que voltar os olhos para o caminho percorrido por essa mulher que, muito antes de Castanheira se tornar município, chegou a um lugar que ela própria descreveu, anos depois, com uma frase que resume a dimensão do desafio: “Não tinha nada!”
Era 7 de setembro de 1980.
Zilda vinha de uma trajetória que já havia passado pelo Espírito Santo e pelo Paraná, antes de chegar ao Mato Grosso. Nascida em Alto Rio Novo, município de Pancas (ES), deixou aquela região acompanhada do esposo, João José Brito, o conhecido João Baiano, e dos três filhos, Veracilda, Sonia e Nilson.
A família chegava ao noroeste de Mato Grosso em um período de intensa ocupação da chamada Amazônia Mato-grossense. Castanheira ainda não era município. Era um pequeno núcleo ligado ao projeto de colonização da região, em meio ao grande movimento de povoamento estimulado pelo governo militar.
Muita gente chegava.
Entre os que vieram havia famílias dispostas a recomeçar, trabalhadores em busca de oportunidades, agricultores, comerciantes e também aventureiros atraídos por uma região que começava a ser aberta. A infraestrutura era mínima e as distâncias, enormes.
Foi nesse cenário que Zilda enxergou uma possibilidade.
Por que não?
Se havia gente chegando e circulando, alguém precisaria oferecer um lugar para dormir e comer.
Nascia, assim, uma das primeiras experiências de hospedagem da futura cidade: um pequeno dormitório com refeições, instalado onde hoje fica a região próxima à Mega Farma. Eram inicialmente seis quartos e um espaço destinado às refeições.
A iniciativa, vista hoje com a tranquilidade de quem conhece Castanheira estruturada, parece simples.
Não era.
Naquele tempo, abrir um estabelecimento para receber pessoas em trânsito, muitas delas desconhecidas, em uma localidade praticamente sem estrutura, exigia muito mais do que espírito empreendedor.
Exigia coragem.
Uma vida sem facilidades
Zilda conheceu uma Castanheira sem ruas definidas, sem mercado e sem as comodidades que hoje parecem elementares.
Para comprar mantimentos, era preciso ir a Juína. Transporte regular e seguro existia praticamente uma vez por semana. No restante do tempo, dependia-se de carona.
Não havia energia elétrica.
A luz vinha da vela ou do lampião.
A água era retirada do poço, manualmente.
O banho era uma operação que hoje parece pertencer a outro mundo: utilizava-se uma espécie de recipiente invertido, com capacidade para cerca de 20 litros.
E era nesse ambiente que Zilda trabalhava.
Trabalhava muito.
A própria filha Veracilda Calauro resume a dimensão daquela trajetória quando fala da mãe. Mais do que os resultados financeiros, ela enxerga a vitória naquilo que foi construído em meio às dificuldades.
“Minha mãe é uma vencedora.”
A palavra ganha outro significado quando pronunciada por alguém que viveu aquela história dentro de casa.
Veracilda lembra que não havia parentes próximos para oferecer apoio. Não havia uma rede familiar à disposição. Não havia os recursos públicos ou as facilidades sociais que hoje ajudam tantas famílias.
Havia os filhos.
E havia uma mãe decidida a cuidar deles.
Depois, a vida trouxe também a separação do esposo. E Zilda precisou seguir praticamente sozinha, criando os filhos e mantendo o trabalho.
Foi justamente nesse período que, segundo a filha, apareceu com ainda mais força aquilo que talvez seja a característica mais marcante da homenageada: a garra.
“Ela só trabalhava”, resume Veracilda.
Mas, por trás dessa frase curta, existe uma vida inteira.
Uma mulher que trabalhou para sustentar os filhos.
Que cuidou deles.
Que os educou.
Que lhes ensinou honestidade e caráter.
Que não tinha riqueza para deixar como herança, mas deixou algo que, para os filhos, vale muito mais.
Um exemplo.
A riqueza que não cabe em números
Zilda permaneceu durante décadas ligada à atividade que ajudou a construir sua história em Castanheira.
O pequeno dormitório inicial deu lugar, mais tarde, a uma estrutura maior, na Avenida 04 de Julho, ao lado da antiga Loja Gazin.
O dormitório virou hotel.
Foram aproximadamente 34 anos de trabalho, entre os dois endereços.
As portas do estabelecimento foram definitivamente fechadas em 2016, embora, em algumas ocasiões especiais, o espaço ainda tenha sido utilizado como referência de hospedagem.
Mas a história não terminou quando o hotel fechou.
Porque há empreendimentos que desaparecem fisicamente, mas permanecem na memória.
E o de Zilda é um deles.
Por ali passaram trabalhadores, viajantes, funcionários de fazendas, pessoas que chegavam para conhecer a região e tantos outros personagens anônimos daquele período de formação de Castanheira.
Entre eles estavam pessoas que trabalhavam em propriedades mais distantes, como a Fazenda Marapé.
Cada hóspede levava consigo uma história.
E deixava outra.
Zilda guardou muitas delas.
Hoje, quando fala daquele tempo, a memória parece funcionar como uma janela aberta para o passado. Os cenários voltam, os nomes aparecem, as situações são relembradas com impressionante facilidade.
É como se aquela Castanheira de 1980 ainda estivesse ali, em algum lugar das lembranças.
A mulher por trás da pioneira
Mas talvez a história de Zilda não deva ser contada apenas pelo que ela construiu.
É preciso olhar para quem ela foi enquanto construía.
Veracilda fala da mãe com admiração e gratidão.
Destaca sua força.
Sua coragem.
Seu caráter.
Sua honestidade.
E, sobretudo, sua dedicação aos filhos.
A filha reconhece que houve sofrimento.
“Foi uma vida difícil?”, pergunta-se.
Sim.
Mas a resposta vem acompanhada de outra certeza: foi uma vida vencida.
Hoje, a família tem sua casa, seu carro, suas conquistas. Não são riquezas que possam ser medidas por grandes patrimônios, mas são conquistas que ganham enorme valor quando comparadas ao ponto de partida.
Zilda chegou a um lugar onde, segundo suas próprias palavras, “não tinha nada”.
E construiu alguma coisa.
Construiu trabalho.
Construiu família.
Construiu dignidade.
Construiu uma história.
E ajudou a construir Castanheira.
Talvez seja por isso que Veracilda não hesite ao definir a mãe como uma vencedora.
Não porque tenha acumulado riquezas.
Mas porque venceu as circunstâncias.
Uma história que merece ser contada
Neste sábado, a família terá momentos especiais no Vale Verde, para uma sessão de fotos sob as lentes de Wesley Borges, seguida de uma confraternização na Fazenda Preciosa, na linha Capixaba.
Serão momentos de celebração, mas também de memória.
Porque comemorar 80 anos, neste caso, significa olhar para uma trajetória que atravessou lugares, mudanças, dificuldades e décadas.
E, a propósito dessa história, o Castanheira News lança nesta segunda-feira mais uma produção do projeto “A Música dos Pioneiros”.
Uma canção e um videoclipe serão dedicados à trajetória de Zilda Calauro, como uma forma carinhosa de transformar em música aquilo que as palavras muitas vezes não conseguem dizer.
Não será apenas uma homenagem.
Será um gesto de respeito.
Respeito por uma mulher que chegou quando a cidade ainda começava a nascer.
Por uma mãe que enfrentou dificuldades para criar seus filhos.
Por uma trabalhadora que fez do trabalho uma espécie de testemunho.
Por uma mulher que, segundo a própria filha, sempre caminhou pela estrada da honestidade e do caráter.
E por uma pioneira que, entre tantas outras histórias anônimas que ajudaram a formar Castanheira, deixou também a sua marca.
Zilda Calauro chegou quando quase tudo ainda estava por fazer.
Talvez essa seja a melhor síntese de sua vida.
Ela não encontrou uma cidade pronta.
Ajudou a construí-la.
Claudete Casusa de Sousa e Sousa
Parabéns! Lindo trabalho. 👏👏👏
Sebastião Donizete Gonçalves
Pois é, em 1981 e1982 eu era hóspede nos finais de semana no hotel da senhora Zilda Calauro, hotel do "João Baiano" ....como o tempo passa!!!