O Castanheira News teve acesso às cartinhas e, ao folheá-las, foi como abrir um retrato sincero da infância contemporânea
Entre bicicletas, bonecas e orações, o Correio do Papai Noel revela sonhos simples, pedidos profundos e a esperança silenciosa depositada em pequenos pedaços de papel.
Ao lado do brilho das luzes natalinas e da figura sempre sorridente do Papai Noel, na Praça 04 de Julho, um detalhe passou despercebido por muitos olhos apressados. Discreta, quase tímida, uma caixa repousava ali como quem guarda segredos. Era o Correio do Papai Noel — um espaço onde as crianças de Castanheira depositaram não apenas pedidos, mas fragmentos de suas almas infantis.
O Castanheira News teve acesso às cartinhas e, ao folheá-las, foi como abrir um retrato sincero da infância contemporânea. Há sonhos grandes e pequenos, desejos moldados pela imaginação, pela falta, pela influência do mundo adulto — e, sobretudo, pela esperança.
Entre bonecas, bicicletas, carrinhos e até um pedido curioso de R$ 500 em dinheiro, feito por uma criança que preferiu não se identificar, percebe-se que o Natal também dialoga com a realidade que cerca esses pequenos. Mas nem tudo se resume ao que se pode embrulhar em papel colorido.
Uma das cartas mais tocantes vem assinada por Eduarda Silva. Com letras simples e um coração desenhado ao final, ela não pede um brinquedo. Pede cuidado. “Ore por ele e por mim”, escreve, pedindo ao Papai Noel que cuide de Jackson. É uma súplica que atravessa o papel e alcança quem lê — porque ali há fé, afeto e uma maturidade precoce que emociona.
Valentina, por sua vez, não especifica o que deseja. Apenas pede “algo”. Talvez porque, para algumas crianças, o mais importante não seja o objeto, mas o gesto de ser lembrada.
Há também pedidos que gritam sonhos represados. Ketelly, de apenas 10 anos, pede uma bicicleta e justifica com uma frase curta e definitiva: “nunca tive uma”. Uma confissão simples que revela desigualdade, mas também a chance concreta de transformação quando a solidariedade encontra caminho.
As cartas também refletem tendências do tempo presente: pedidos por boneca reborn, um chapéu preto da cantora Ana Castela, ídolo infantil do momento, e até uma vaca de pelúcia. Há quem sonhe com um carrinho de bebê, cuidadosamente descrito como sendo “para ser carregada pela mãe”, e quem imagine aventuras com um caminhão cegonha. E, em meio às gargalhadas que alguns pedidos despertam, surge um registro irresistível: “quero ter um namorado pra sempre”. Um pedido tão inocente quanto eterno — cuja autoria, claro, permanece em segredo.
Todas essas cartinhas estão guardadas na Secretaria de Assistência Social de Castanheira, à espera de corações dispostos a transformá-las em realidade. Porque o Natal, afinal, não cabe em um único dia do calendário. Ele se estende no tempo quando alguém decide ouvir, sentir e agir.
A maioria desses sonhos é possível. Alguns custam pouco. Outros exigem apenas atenção. Todos, sem exceção, pedem a mesma coisa: que alguém seja tocado. E quando o coração se permite tocar, o Natal acontece — de verdade.