Do curral improvisado a um espetáculo do agro, o evento é um dos mais atrativos da região noroeste de Mato Grosso.
Deitado em sua rede, em uma rua tranquila do Setor Industrial de Juína, para onde se mudou em 2024 após décadas de história em Castanheira, Amilton José de Sant’Anna observa o tempo passar — mas sua memória segue firme, especialmente quando o assunto é o Torneio Leiteiro de Castanheira.
Com a chegada de julho de 2026, o município se prepara para a 22ª edição de um dos eventos mais importantes do agronegócio no noroeste de Mato Grosso. E é impossível falar dessa trajetória sem voltar ao início — um início simples, quase improvisado, mas carregado de significado.
“Era tudo diferente…”, resume Amilton, com um misto de saudade e reflexão.
O começo: simples, mas histórico
O hoje consolidado torneio teve sua primeira edição em maio de 1995, no curral da Rezzieri. A organização era do então Laticínios Farfalla — que mais tarde se tornaria o conhecido Laticínios Princesa — sob o comando de Berzelli.
Naquele tempo, nada de grandes estruturas ou premiações milionárias. O que havia era disposição, curiosidade e muita vontade de aprender. “Era mais uma brincadeira. Um ajudava o outro. Não tinha essa rivalidade de hoje”, relembra Amilton.
Os prêmios? Simples e úteis: botinas, tambores de leite e troféus simbólicos. Mas o verdadeiro prêmio era o reconhecimento entre os produtores. E foi nesse cenário que Amilton entrou para a história.
A primeira vitória: Aquidauana!
A primeira campeã do torneio saiu de seu sítio: uma vaca chamada Aquidauana, batizada em homenagem à cidade sul-mato-grossense conhecida como Portal do Pantanal.
Sem tecnologia, sem manejo avançado e com pouco conhecimento técnico, os desafios eram grandes. Casos de intoxicação animal não eram raros, e a produtividade muitas vezes era comprometida. “Naquela época ninguém sabia tratar direito as vacas antes e durante o torneio”, conta.
Ainda assim, ele venceu. E não apenas uma vez — repetiu o feito em outras edições, consolidando seu nome como um dos grandes pioneiros da competição.
Antes do Torneio, a luta pela terra
Mas a história de Amilton vai além das ordenhas e premiações.
Ela começa muito antes, na década de 70, do século passado, quando chegou a Mato Grosso com a família, vindo do Paraná. Após três anos em Cáceres, seguiu, em 1977, para uma região ainda em formação — o que viria a ser Castanheira. “Desembarcamos na beira do rio no dia 19 de maio”, recorda.
Naquele tempo, não havia estrada. O acesso era aberto na base da coragem: motosserra, machado e uma esteira para rasgar o mato fechado. Pinguelas de madeira improvisavam travessias.
O trabalho inicial era pesado: derrubada de mata para um grupo paulista que havia adquirido terras na região da Linha Capixaba. Somente 11 anos depois, Amilton conquistaria sua própria terra na Linha 01 — o sítio onde construiu sua vida e sua história até 2024.
Entre o passado e o presente
Hoje, ao ver o crescimento do torneio, Amilton reconhece a importância que o evento ganhou — mas também faz um alerta.
“A competição ficou muito grande. Antes era mais união… hoje tem muita preocupação, muita disputa”, avalia.
A evolução trouxe tecnologia, produtividade e visibilidade. Mas, segundo ele, também transformou o espírito do evento.
Um legado que permanece
Mesmo distante de Castanheira, o nome de Amilton José de Sant’Anna segue vivo a cada nova edição do torneio.
Ele não é apenas o primeiro campeão. É símbolo de uma época em que tudo era mais difícil — e talvez, por isso mesmo, mais verdadeiro.
Enquanto o Torneio Leiteiro se prepara para mais uma edição, sua história continua sendo contada… não apenas nos currais modernos de hoje, mas na memória de quem ajudou a construir tudo desde o começo.
E ali, entre lembranças e silêncios, Amilton segue — como parte viva de uma tradição que nasceu simples, cresceu forte e se tornou orgulho de toda uma região.