Moradores continuam sujando a cidade
Na manhã desta sexta-feira, 14, quem passou pela Avenida Carolina Rezzieri encontrou uma dessas imagens: um grupo de urubus disputando restos de alimentos e outros materiais em decomposição jogados às margens da via. O detalhe que torna a cena ainda mais emblemática é que o ponto fica a aproximadamente 100 metros de uma das placas educativas instaladas justamente para orientar a população a não jogar lixo naquele local.
É como se a cidade estivesse falando — e alguns insistissem em não ouvir, por não se lembrarem que uma cidade limpa começa onde termina a indiferença. O avanço desta prática tem causado indignação de parte dos moradores afetados, uma vez que é muito irracional um cidadão - ou vários - sair de sua casa, com lixo, e jogar praticamente na frente da casa dos outros.
O descarte irregular de resíduos é um problema enfrentado por muitas cidades brasileiras e tem consequências que vão muito além da aparência desagradável de um terreno sujo ou de uma rua com lixo espalhado. A Organização Mundial da Saúde alerta que a disposição inadequada de resíduos pode contaminar água, solo e ar, favorecer a proliferação de vetores e aumentar riscos à saúde. A entidade considera a gestão adequada dos resíduos uma questão diretamente relacionada à saúde pública.
Por isso, uma cidade limpa não é apenas uma cidade mais bonita. É uma cidade mais saudável, mais organizada e mais respeitosa com as pessoas que nela vivem.
O problema não é apenas do poder público
É evidente que cabe ao poder público manter serviços eficientes de coleta, limpeza, fiscalização e educação ambiental. E Castanheira possui serviços de coleta e, nos últimos anos, também recebeu investimentos e iniciativas voltadas à melhoria da infraestrutura urbana, incluindo a instalação de lixeiras em grande parte das propriedades da cidade.
Mas existe um limite para aquilo que o poder público consegue fazer Não há serviço de limpeza que consiga acompanhar uma população que insiste em sujar a cidade, sem nenhum constrangimento. Alguns fazem descarte em pleno dia, à luz do sol.
Se existe coleta, é preciso colocar o lixo no lugar correto. Se existem lixeiras, é preciso utilizá-las. Se existem placas educativas, é preciso respeitá-las. E, quando uma cidade oferece condições mínimas para que o cidadão descarte corretamente seus resíduos, jogar lixo em terrenos, margens de ruas, áreas públicas ou pontos inadequados deixa de ser simplesmente um mau hábito: torna-se uma atitude de desrespeito com toda a comunidade.
A Organização Mundial da Saúde é clara ao relacionar a deficiência na gestão dos resíduos com riscos ambientais e sanitários, inclusive pela possibilidade de favorecer a presença de insetos, roedores e outros vetores de doenças.
Uma cultura que precisa mudar
Talvez o maior desafio de Castanheira não seja apenas recolher o lixo que foi jogado irregularmente. Seja convencer algumas pessoas de que a rua não é extensão do quintal de ninguém, o terreno vazio não é depósito de lixo e o espaço público pertence a todos.
É nesse ponto que iniciativas como a desenvolvida por Rejane Gazola, moradora da Fazenda Canaã, ganham importância. Ao levar para a cidade as ações do projeto “Caminhando e Limpando a Natureza”, ela ajuda a demonstrar que cuidar do ambiente não precisa começar com grandes estruturas ou grandes discursos. Pode começar com uma atitude simples: não jogar aquilo que não serve mais no lugar onde outras pessoas terão de conviver com aquilo.
E talvez seja justamente essa mudança de mentalidade que Castanheira esteja precisando. Não basta esperar que alguém venha limpar. É necessário perguntar: por que sujar aquilo que será necessário limpar depois?
Uma imagem que deveria envergonhar
Os urubus da Avenida Carolina Rezzieri, vistos nesta sexta-feira, poderiam até render uma imagem curiosa. Afinal, se os animais pudessem falar, talvez agradecessem a quem lhes oferece alimento gratuitamente. Mas a cena, na verdade, não é engraçada. É simbólica.
Enquanto os urubus encontram fartura onde deveria existir limpeza, a cidade perde um pouco de sua beleza e de sua dignidade. E existe algo ainda mais preocupante: quando uma cena assim se torna habitual, corre-se o risco de a sociedade começar a considerá-la normal. Não deveria ser normal.
Uma cidade limpa não depende exclusivamente de caminhões, garis, lixeiras, placas ou campanhas. Depende também de consciência. A Prefeitura pode recolher o lixo, mas não pode recolher a falta de educação de quem insiste em jogá-lo onde não deve.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) destaca que a gestão sustentável dos resíduos é fundamental para construir cidades melhores, mais sustentáveis e com melhor qualidade de vida. A conclusão é simples: limpeza urbana não é luxo. É saúde, cidadania e respeito.
Castanheira pode — e deve — continuar cobrando melhores serviços, fiscalização e campanhas mais contundentes. Mas a cidade também precisa cobrar de seus próprios moradores uma mudança de comportamento. Porque, no fim das contas, nenhuma cidade conseguirá permanecer limpa se parte de seus moradores continuar entendendo que o lixo é problema de alguém.
Uma cidade limpa começa com uma decisão muito simples: cada pessoa assumir a responsabilidade pelo lixo que produz. E talvez seja justamente aí que Castanheira precise começar uma nova história. Antes que os urubus continuem nos lembrando, todos os dias, daquilo que nós mesmos estamos deixando para trás.