O Castanheira News destaca do que está sendo disponibilizado nos streamings, um filme que tem muito a nos ensinar, a propósito de questões tão relevantes como o amor e o ódio.
“Hostis” nos leva ao Velho Oeste, mas suas perguntas pertencem ao nosso tempo: até onde o ódio pode nos conduzir — e o que acontece quando descobrimos que precisamos uns dos outros?
Há filmes que terminam quando sobem os créditos. Outros continuam dentro de nós, porque a história que contam não pertence apenas ao tempo em que foi ambientada. “Hostis”, drama dirigido por Scott Cooper, é um deles.
Ambientado em 1892, o filme acompanha o capitão Joseph Blocker, um militar endurecido por anos de conflitos com povos indígenas, que recebe a missão de escoltar o chefe cheyenne Yellow Hawk e sua família de volta às suas terras. O detalhe que muda tudo é justamente este: Blocker carrega um profundo ressentimento contra aqueles que agora precisa proteger.
É aí que a história deixa de ser apenas um faroeste. Porque, afinal, o que fazemos quando somos obrigados a caminhar ao lado de alguém que aprendemos a odiar?
O filme coloca seus personagens diante de uma paisagem hostil, mas talvez a maior hostilidade não esteja nas montanhas, nos ataques ou nos perigos da jornada. Ela está dentro deles. São pessoas carregando mortos, perdas, culpas, preconceitos, lembranças e feridas que não cicatrizaram. E não é difícil transportar essa realidade para os nossos dias.
Vivemos uma época em que as pessoas podem transformar diferenças em trincheiras. Diferenças políticas, religiosas, ideológicas, culturais ou simplesmente de opinião muitas vezes são suficientes para que alguém deixe de ser visto como próximo e passe a ser tratado como adversário. O outro já não precisa fazer algo contra nós; basta pensar diferente.
O perigo começa quando o desacordo deixa de ser apenas desacordo e se transforma em desprezo. O ódio tem uma característica particularmente perigosa: ele costuma pedir pouco no começo. Uma palavra áspera. Uma generalização. Uma caricatura do outro. Uma lembrança ruim transformada em regra. Um grupo inteiro passa a carregar a culpa pelo erro de alguns. E, quando percebemos, já não estamos discutindo ideias; estamos desumanizando pessoas.
“Hostis” sugere justamente o contrário: às vezes, é preciso conviver com aquele que julgávamos incapazes de compreender para descobrir que ele também carrega dores, perdas e esperanças. Não significa apagar a história, negar injustiças ou fingir que conflitos nunca existiram. Significa não permitir que o passado determine para sempre a maneira como enxergaremos cada pessoa que está diante de nós.
Há uma pergunta especialmente incômoda que o filme pode deixar para o espectador: quanto do nosso ódio é realmente nosso e quanto recebemos de uma história que nos foi contada?
Algumas pessoas aprendem a odiar antes mesmo de conhecer aquilo que odeiam. Crescem ouvindo histórias, herdando ressentimentos e reproduzindo julgamentos. Assim, o ódio vai passando de uma geração para outra como uma espécie de herança que ninguém pediu, mas muitos insistem em preservar.
O amor, entretanto, pode interromper essa transmissão. Não necessariamente um amor sentimental, que ignora diferenças e conflitos, mas aquele que reconhece no outro uma vida que também merece respeito. O amor que não exige concordância para oferecer humanidade. O amor que consegue dizer: “não penso como você, mas ainda reconheço você como meu semelhante.”
E talvez seja exatamente aí que “Hostis” encontre uma de suas maiores atualidades. Em uma sociedade cansada de conflitos, precisamos recuperar a capacidade de caminhar juntos sem precisar ser iguais. Precisamos aprender novamente que discordar não é odiar, e vencer uma discussão não significa destruir quem pensa diferente. Porque o ódio não destrói somente aquele que é odiado. Ele também transforma quem o cultiva.
Aos poucos, o coração se acostuma com a dureza. A violência verbal parece normal. A compaixão passa a ser confundida com fraqueza. Perdoar parece ingenuidade. E aquilo que começou como uma reação a uma ofensa pode terminar construindo uma personalidade incapaz de reconhecer qualquer bondade no outro.
Por isso, talvez a grande questão de “Hostis” não seja apenas saber se antigos inimigos conseguem sobreviver juntos a uma jornada perigosa. É perguntar se ainda somos capazes de abandonar algumas armas que carregamos por dentro. Armas feitas de preconceito. De ressentimento. De orgulho. De julgamentos precipitados. De velhas mágoas.
No mundo real, não precisamos atravessar o Velho Oeste para encontrar hostilidade. Ela pode estar numa família dividida, numa comunidade, nas redes sociais, numa roda de conversa ou até dentro de uma igreja. E talvez a preservação do bem comece justamente onde alguém decide não devolver o ódio com mais ódio.
Porque o amor não é apenas uma emoção bonita. Em determinadas circunstâncias, amar é uma forma de resistência. É impedir que a violência encontre em nós um novo lugar para continuar existindo. “Hostis” pode ser visto, então, como uma longa viagem em direção a uma pergunta que continua atual: quando o mundo nos ensina a odiar, teremos coragem de aprender a amar?
Talvez o futuro não dependa apenas de quem tem razão nas grandes disputas. Talvez dependa também daqueles que, mesmo tendo razões para alimentar ressentimentos, escolhem não fazê-lo. No fim, preservar o bem pode começar com uma atitude aparentemente pequena: olhar para o outro e reconhecer que, antes de qualquer rótulo, diferença ou conflito, existe ali uma pessoa.
E pessoas podem ferir umas às outras. Mas também podem perdoar, cuidar, recomeçar e, quem sabe, descobrir que a estrada fica menos perigosa quando deixam de caminhar como inimigos.