Estudo aponta que bets superaram juros e crédito como principal fator de pressão no orçamento doméstico
As apostas esportivas online passaram a ocupar o topo da lista de fatores que mais contribuem para o endividamento das famílias brasileiras. É o que revela um estudo do Ibevar em parceria com a FIA Business School, que analisou o impacto de diferentes variáveis sobre as dívidas no país.
A pesquisa comparou quatro elementos principais: o peso do crédito na renda, as taxas de juros, o prazo das dívidas e o avanço das apostas online. O resultado chama atenção: as chamadas “bets” ultrapassaram fatores historicamente determinantes, como os altos juros, tornando-se o principal vetor de endividamento recente.
Embora o crescimento geral das dívidas tenha apresentado leve desaceleração ao longo dos últimos anos, a dinâmica mudou após a legalização das apostas esportivas em 2018. A popularização das plataformas a partir de 2019 e sua regulamentação mais recente intensificaram o impacto no orçamento das famílias.
O problema é ainda mais grave entre os brasileiros de menor renda. Nesse grupo, os gastos com apostas comprometem uma parcela significativa dos rendimentos, levando muitos a recorrerem a modalidades de crédito com juros elevados, como cartão de crédito e cheque especial.
O cenário evidencia um comportamento preocupante: recursos que poderiam ser destinados ao consumo essencial, investimentos ou poupança de longo prazo estão sendo direcionados para apostas de retorno incerto — e, na maioria das vezes, negativo.
Dados do Banco Central do Brasil reforçam a gravidade da situação. Segundo o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, milhões de brasileiros enfrentam juros extremamente elevados. Atualmente, cerca de 49 milhões de pessoas pagam taxas próximas de 100% ao ano em linhas de crédito não consignado, enquanto mais de 100 milhões utilizam o cartão de crédito nessas condições.
Enquanto isso, o mercado de apostas segue em expansão acelerada. Em 2025, a receita bruta das empresas autorizadas no país chegou a R$ 37 bilhões, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas. O valor representa o total movimentado nas apostas, sem considerar os prêmios pagos aos usuários.
Especialistas alertam que, sem políticas de educação financeira mais eficazes e maior controle sobre o setor, o avanço das apostas pode aprofundar ainda mais o ciclo de endividamento — especialmente entre os mais vulneráveis.