Com amplo apoio popular, instituição deve se preparar para a transição ao modelo cívico-militar.
A comunidade escolar de Castanheira consolidou sua decisão em uma consulta pública histórica sobre o futuro da Escola Estadual Maria Quitéria. Com a chancela da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC-MT), o resultado revelou uma adesão massiva: 92,7% dos votantes manifestaram-se favoráveis à implementação do modelo cívico-militar, enquanto apenas 7,3% foram contrários e 0,6% votaram em branco. O material publicitário oficial, que celebra o desfecho com um "muito obrigado pela confiança", estampa a frase:
“Seremos Escola Estadual Cívico-Militar”
Na imagem de divulgação, dois alunos aparecem com os punhos estendidos, simbolizando a união e o novo capítulo da instituição. Em contato com a reportagem, a diretora da unidade, professora Sandra Alves de Oliveira, destacou que o momento agora é de aguardar a finalização dos trâmites legais para que a mudança seja efetivada no cotidiano escolar.
O modelo de Escolas Cívico-Militares (ECIM) é uma proposta de gestão compartilhada que une a expertise pedagógica de educadores civis ao suporte de disciplina e administração de militares (policiais ou bombeiros militares, ou membros das Forças Armadas). Nesse formato, o currículo escolar e as aulas continuam sob total responsabilidade de professores e coordenadores civis, seguindo as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A contribuição militar foca na monitoria de pátio, na transmissão de valores como civismo, ética e respeito à hierarquia, além de auxiliar na organização administrativa e na segurança do perímetro escolar, buscando reduzir índices de violência e evasão.
A principal diferença entre as escolas cívico-mitares e os colégios militares tradicionais reside na gestão e na finalidade. Nos colégios militares, como o Tiradentes, em Juína, a escola tem uma com presença militar maior, inclusive na direção escolar, e processos de seleção próprios (concursos ou sorteios). Já no modelo cívico-militar, a escola permanece pertencente à rede estadual ou municipal; a gestão pedagógica é estritamente civil e o ambiente apenas incorpora a disciplina militar como uma ferramenta de apoio à convivência, sem transformar o aluno em um "cadete" de carreira.
Internacionalmente, a comparação com países da Europa e os Estados Unidos mostra que o Brasil trilha um caminho peculiar. Nos EUA, o modelo mais próximo são as Military Charter Schools, que são escolas públicas independentes com foco em liderança militar, mas que operam dentro de um sistema de escolha educacional muito mais descentralizado. Na Europa, países como França e Inglaterra possuem colégios de tradição militar centenária, mas o conceito de "gestão compartilhada" em escolas públicas regulares para conter vulnerabilidade social não é uma prática comum, sendo o ensino militar geralmente restrito a instituições de elite ou preparatórias para as academias de oficiais.
No entanto, o modelo não é isento de polêmicas no cenário nacional. A discussão no Brasil é marcada por debates intensos entre defensores e críticos. De um lado, pais e gestores que buscam ordem e segurança aplaudem os resultados disciplinares e a melhoria no desempenho escolar. De outro, entidades educacionais e pesquisadores questionam a militarização de espaços civis, argumentando que o papel do militar não é o de educar e que o alto investimento por aluno nessas unidades poderia ferir o princípio da equidade, além de temerem uma possível inibição da liberdade de expressão e da diversidade de pensamento dentro do ambiente acadêmico.