Lidía Inácio da Silva, a Dorinha, faleceu nesta quarta-feira, 12, após um acidente de Moto, no Vale do Seringal.
Há despedidas que chegam sem aviso. A manhã desta quarta-feira, 12 de agosto, parecia ser apenas mais uma entre tantas na vida de Lídia Inácio da Silva, a Dorinha, como era carinhosamente chamada havia cerca de 40 anos. Ao percorrer de moto a vicinal que corta o I Assentamento, no Vale do Seringal, em Castanheira, ela não poderia imaginar que aquele seria seu último deslocamento.
Cristã e integrante da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Dorinha certamente conhecia a fragilidade da existência humana. Mas saber que a vida é breve não torna mais fácil a chegada de uma notícia como esta. Aos 40 anos, sua trajetória foi interrompida por uma fatalidade: ao perder o controle da motocicleta, sofreu um grave acidente. O socorro chegou depois, acionado por uma pessoa que passava pelo local, mas os ferimentos eram graves demais.
A notícia rapidamente se espalhou por Castanheira, levando tristeza a uma de suas famílias mais tradicionais e a um círculo de amizades construído ao longo dos anos. Porque, como alguém já observou, não existe perda fácil quando nos deixa alguém que fazia parte da nossa história. E, no entorno de Dorinha, os vínculos eram especialmente fortes.
“A gente sempre foi muito família”, resume a sobrinha Ana Paula, entre aqueles que, neste momento, procuram na fé algum consolo para uma ausência que ainda parece difícil de compreender.
Filha de José Ferreira Sobrinho, o Zé da Marva, e Joana Inácio, Dorinha carregava também a história de uma família ligada a Araputanga, referência importante na trajetória de muitos pioneiros que, antes de chegarem ao noroeste de Mato Grosso, passaram por aquela região em busca de oportunidades e de um novo começo.
Ela deixa os pais, os irmãos Susi Nava e Ivan Inácio, e os filhos Rafael e Felipe, além de uma extensa rede de familiares e amigos que agora tentam reorganizar a vida diante de uma cadeira vazia, de uma voz que não será mais ouvida e de lembranças que, aos poucos, passarão a ocupar o lugar da presença.
Ana Paula, as propósito, volta a falar da família e revela um aspecto que talvez explique muito do carinho existente entre eles: “Tínhamos nossas diferenças familiares, mas nunca deixamos de nos reunir.”
É justamente assim que muitas famílias constroem suas histórias. Nem sempre pela ausência de diferenças, mas pela capacidade de não permitir que elas sejam maiores que os laços. E talvez seja esse um dos legados mais bonitos deixados por Dorinha: a compreensão de que, apesar das circunstâncias, família continua sendo lugar de encontro.
Foi também no ambiente de fé que ela encontrou referências para compreender a vida. No ato de cultuar, ouviu muitas vezes mensagens sobre a esperança, a eternidade e a promessa de Deus. Agora, são essas mesmas palavras que seus familiares procuram para atravessar os primeiros momentos da saudade.
A Bíblia registra uma afirmação que, diante da morte, ganha um significado especial: “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos.” um alento, pois essa ruptura não traz explicação para todas as perguntas. Talvez nenhuma palavra humana consiga ser. Mas é uma promessa para quem crê: a morte não apaga diante de Deus a história daqueles que partiram.
Nas redes sociais, antes mesmo de começarem as despedidas na Casa da Saudade, as manifestações de carinho já revelavam a dimensão da presença de Dorinha na vida de tantas pessoas.
“Tô chocada, muito triste”, escreveu Amaziles Eleto, a Tuíta, Secretária de Assistência Social, que mesmo estando em viagem e vivendo dias especiais com a chegada da primeira experiência como avó, encontrou espaço para recordar os tempos compartilhados com Dorinha na Escola Mário de Andrade, no Vale do Seringal.
São essas pequenas lembranças que, depois de uma partida, se transformam em grandes tesouros. Uma conversa, uma convivência, um encontro casual, uma brincadeira, uma diferença superada, uma reunião de família. A vida vai deixando seus sinais nas pessoas, muitas vezes sem que percebamos.
Nos últimos tempos, Dorinha vivia no sítio dos pais, nas proximidades da Comunidade Nova Conquista, onde também desempenhava a tarefa de cuidadora. Era uma vida simples, próxima da terra, da família e da rotina do lugar que conhecia tão bem. Agora, o Vale do Seringal amanhecerá diferentes para aqueles que a conheceram.
Há momentos em que a estrada parece guardar mais do que marcas de pneus e caminhos percorridos. Guarda histórias. E aquela vicinal, que nesta manhã levou Dorinha para um destino que ela jamais imaginaria, passa a fazer parte também da memória de uma mulher que deixou sua marca na vida daqueles que a conheceram.
O filósofo romano Sêneca escreveu que “a vida é longa se soubermos utilizá-la”. Talvez seja essa uma das maneiras mais serenas de olhar para uma existência: não apenas pelo tempo que durou, mas pelos afetos que conseguiu construir.
Dorinha não terá mais a oportunidade de completar muitos dos planos que certamente ainda guardava. Mas deixou algo que a morte não consegue levar: a memória de quem foi amada. E, para aqueles que compartilham sua fé, permanece também a esperança anunciada por Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (João 11:25).
Nas próximas horas Castanheira se despede de Dorinha. A família chora. Os amigos lembram. O silêncio ocupa os espaços onde antes havia sua presença. E, enquanto a saudade começa a fazer morada, fica a esperança de que algumas despedidas sejam apenas um “até breve” para aqueles que acreditam que a última palavra não pertence à morte.