Entre divergências do passado e exemplos de complementaridade no presente, Castanheira continua escrevendo sua história.
Lançada em julho de 2003, durante a segunda gestão do prefeito Dr. Jorge Arcos, a revista comemorativa dos 15 anos de Castanheira teve um diferencial: além de registrar as conquistas alcançadas pelo município, resgatou parte de sua trajetória administrativa, incluindo realizações da gestão anterior, também a segunda sob a liderança de Zilda Stangherlin.
Entre as páginas dedicadas à história, porém, ficaram registradas algumas das primeiras tensões do cenário político local.
Na política, as diferenças de interpretação sobre o passado quase sempre encontram espaço. Não foi diferente naquele período. Ao assumir a Prefeitura, em janeiro de 2001, o médico Jorge Arcos fez uma avaliação severa da situação que, segundo ele, havia encontrado.
Em editorial assinado também por sua esposa, Beth Arcos, afirmou: “Assumimos a Prefeitura em Janeiro de 2001, para administrar um município endividado, desacreditado, com um povo sem esperança, já que nada em Castanheira valia nada”.
A declaração apresentava o diagnóstico sob a ótica do novo governo, registrando uma crítica à administração que o antecedera. Era um sinal de que, embora a história de Castanheira fosse construída por esforços compartilhados, sua interpretação começava a ganhar contornos distintos, algo muito comum no campo político.
Ouvidos pelo Castanheira News a propósito desses primeiros embates, atores ligados à história política do município ressaltam que Zilda Stangherlin precisa ser lembrada à luz das circunstâncias em que assumiu a Prefeitura na primeira gestão.
Castanheira ainda dava seus primeiros passos, enfrentando enormes desafios de infraestrutura e organização. Nesse contexto, destacam a contribuição de seu cunhado, Elizeu Rezzieri, que disponibilizou maquinário para a abertura das primeiras estradas e viabilizou o transporte por balsa, favorecendo a chegada e a movimentação dos pioneiros.
Outro capítulo emblemático dessa trajetória é o surgimento dos assentamentos do Vale do Seringal. Se na gestão de Jorge Arcos o projeto ganhou impulso, foi na administração de Zilda que o trabalho de abertura das estradas vicinais se consolidou.
A infraestrutura viária era fundamental para garantir o acesso às áreas ocupadas pelas famílias e enfrentar os desafios de uma região em processo de povoamento. Essa etapa também contou com o esforço de pessoas anônimas, muitas vezes esquecidas nos registros oficiais, que estiveram na linha de frente dos trabalhos.
A consolidação das estradas representou, assim, uma contribuição importante da gestão de Zilda para a continuidade do projeto dos assentamentos e para o desenvolvimento da região.
Diz-se que a paz chegou a ser selada entre os dois primeiros prefeitos de Castanheira, ambos escolhidos para exercer dois mandatos, em períodos distintos. Ainda assim, um livro recentemente lançado pelo ex-prefeito Jorge Arcos retoma críticas a Zilda de maneira direta e dirige observações a outro administrador municipal de forma indireta, pois é citado, ironicamente, com um pseudônimo.
São marcas de uma política partidária em que a memória, por vezes, permanece atravessada pelas divergências de seus protagonistas.
O tempo, entretanto, também oferece outros exemplos. As duas gestões municipais mais recentes - de Mabel e Juninho - apresentam uma característica que merece registro: o trabalho complementar de seus dois gestores, sem críticas públicas recíprocas, mesmo com cada um exercendo dois mandatos consecutivos.
Em vez de transformar a sucessão administrativa em disputa pelo reconhecimento, essa experiência demonstra a possibilidade de somar esforços, dar continuidade a iniciativas e respeitar o trabalho realizado anteriormente.
É um contraste significativo com as primeiras tensões políticas registradas na história municipal. Afinal, o desenvolvimento de uma cidade não pertence exclusivamente a um governante, mas resulta da contribuição de diferentes administrações, cada qual diante de suas circunstâncias e responsabilidades.
Entre divergências do passado e exemplos de complementaridade no presente, Castanheira continua escrevendo sua história. E, como acontece com os registros que resistem ao tempo, caberá às futuras gerações avaliar as realizações, compreender os desafios e reconhecer a contribuição de cada um para a construção do município.