A sabedoria não elimina todas as diferenças, mas nos ensina a atravessá-las sem perder de vista aquilo que é maior do que nossas preferências: a vontade de Deus e a unidade do seu povo
Vivemos dias em que as pessoas têm acesso a uma quantidade extraordinária de informação, mas isso não significa que tenham sabedoria. Nunca foi tão fácil saber o que aconteceu; talvez nunca tenha sido tão difícil discernir o que fazer com aquilo que sabemos. O mundo está dividido, famílias estão divididas, amizades são rompidas por opiniões e até igrejas podem experimentar divisões. Muitas vezes, não é a falta de conhecimento que produz esses conflitos, mas a falta de sabedoria para ouvir, discernir, responder e agir. É nesse cenário que Tiago nos conduz a uma oração simples e profunda: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus” (Tg 1.5).
Sabedoria, na perspectiva bíblica, é mais do que conhecimento. Conhecimento informa; sabedoria ensina a viver. É possível conhecer muitos textos bíblicos, possuir bons argumentos e, ainda assim, não saber tratar o próximo com graça. A verdadeira sabedoria nos ajuda a aplicar a verdade de Deus às situações concretas da vida. João Calvino, logo no início das Institutas, relaciona o verdadeiro conhecimento de Deus ao conhecimento de nós mesmos. Quando conhecemos melhor a Deus, também percebemos melhor nossa própria limitação e nossa necessidade da graça. Por isso, quem busca sabedoria não procura simplesmente ter mais respostas, mas aprende a viver sob a direção do Senhor.
Tiago também nos ensina que a sabedoria começa com humildade. Ele não diz que devemos confiar apenas em nossa experiência, inteligência ou capacidade de julgamento, mas que devemos pedir a Deus, que dá liberalmente. É justamente essa consciência de nossa insuficiência que aparece na oração de Paulo pelos efésios: ele pede que Deus lhes conceda “espírito de sabedoria e de revelação” e que sejam “iluminados os olhos do vosso coração” (Ef 1.17-18). Há momentos em que não precisamos apenas de novos argumentos; precisamos de olhos iluminados para enxergar aquilo que nossa irritação, nosso orgulho ou nossas certezas não nos permitem perceber.
E há ainda uma advertência que não podemos ignorar. O salmista registra a palavra do Senhor: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento” (Sl 32.9). A figura é forte porque lembra que alguém pode conhecer a Deus e, mesmo assim, comportar-se com obstinação, recusando-se a ouvir, reconsiderar, perdoar ou reconhecer que pode estar errado. Num tempo marcado pela polarização, a sabedoria cristã não significa abandonar convicções nem relativizar a verdade; significa aprender a sustentá-las com humildade, amor e discernimento. Nem toda diferença precisa transformar-se em ruptura, e nem toda discussão precisa transformar-se em batalha.
Talvez esta seja uma das orações mais necessárias para a Igreja e para as famílias de nossos dias: “Senhor, dá-me sabedoria para falar quando devo falar, silêncio quando devo calar, humildade para ouvir, discernimento para escolher e graça para tratar o outro.” E, ao buscarmos essa sabedoria, temos diante de nós o maior modelo: Jesus Cristo. Em seus ensinos, em suas parábolas, em suas respostas e na maneira como tratava as pessoas, vemos a sabedoria perfeita colocada em prática. Nele, verdade e graça nunca estiveram separadas. A sabedoria não elimina todas as diferenças, mas nos ensina a atravessá-las sem perder de vista aquilo que é maior do que nossas preferências: a vontade de Deus e a unidade do seu povo. Num mundo em que tantos querem simplesmente ter razão, que o Senhor nos conceda algo melhor: olhos iluminados, coração humilde e sabedoria para viver, tendo Cristo como nosso maior exemplo.