A expressão "prefiro desaparecer" soa como uma voz profética num cenário de caos.
A frase dita pela jovem espanhola Noelia Castillo, dias antes de sua morte nesta quinta feira por eutanásia — “Não gosto do rumo que o mundo e a sociedade estão tomando; prefiro desaparecer, porque está cada vez pior” — não é apenas um desabafo pessoal. É um grito que encontra eco em muitos corações silenciosos espalhados pelo mundo.
Sua decisão, marcada por dor, solidão e incompreensão, expõe algo mais profundo do que um sofrimento individual: revela um mal-estar coletivo, uma sensação crescente de que algo está fora do lugar — de que o mundo perdeu o rumo.
Não sabemos se Noelia conhecia as Escrituras. Mas o que ela expressou com suas próprias palavras já havia sido descrito há séculos por Cristo e pelos apóstolos.
Em Mateus 24, Jesus advertiu sobre os tempos finais: guerras, fome, tragédias, engano e, talvez o mais alarmante de tudo, o esfriamento do amor. O apóstolo Paulo, em suas cartas, também descreve uma humanidade em decadência moral, egoísta, insensível, distante de Deus e de valores essenciais.
O diagnóstico bíblico é claro — e, para muitos, desconfortável: do ponto de vista da escatologia, o mundo não caminha para a melhoria, mas para a deterioração. Não se trata de pessimismo, mas de previsão espiritual. A história, segundo as Escrituras, avança para um colapso moral e espiritual antes de qualquer restauração definitiva.
E é exatamente isso que, de forma intuitiva, Noelia parece ter percebido. Quando ela diz que “está cada vez pior”, ela não fala apenas de si — fala de uma sociedade onde a empatia se esgota, onde relações se tornam frágeis, onde a solidão cresce mesmo em meio à multidão. Um mundo onde guerras continuam sendo movidas por ganância, onde a fome ainda assola milhões, onde tragédias ambientais se intensificam, e onde o amor — como Jesus alertou — tem se esfriado.
Mas é aqui que a reflexão precisa ir além do diagnóstico. Porque, se por um lado a Bíblia afirma que o mundo seguirá esse curso, por outro lado ela também aponta um chamado claro: os que creem não foram chamados para seguir a corrente, mas para nadar contra ela.Em um mundo que se decompõe, somos chamados a ser resistência.Em uma sociedade que perde o amor, somos chamados a amar mais. Em meio à indiferença, somos chamados à compaixão.
A resposta ao colapso não é o desaparecimento — é a presença transformadora. A dor de Noelia nos confronta, não para julgamento, mas para reflexão. Quantas pessoas ao nosso redor também estão cansadas? Quantas se sentem sozinhas, incompreendidas, invisíveis? Quantas, em silêncio, concordam com ela?
Se o mundo caminha para dias difíceis, isso não anula o propósito daqueles que ainda estão nele. Pelo contrário: intensifica. Porque, enquanto muitos desistem, há um chamado para permanecer.
Enquanto alguns perdem a esperança, há um chamado para anunciá-la.E talvez a maior tragédia não seja apenas quando alguém decide partir… mas quando os que ficam deixam de fazer diferença.No fim, a pergunta que permanece não é apenas sobre Noelia — mas sobre nós em um mundo que “está cada vez pior”, que tipo de presença estamos sendo?