Mas foi em Castanheira, no noroeste do estado, que sua história ganhou contornos especiais.
A homenagem prestada pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC), nesta semana, pelos 25 anos de dedicação ao serviço público não é apenas um marco temporal na trajetória de Helenice Joviano Roque de Faria — é o reconhecimento de uma história que atravessa territórios, rompe barreiras e transforma vidas por meio da educação.
Mineira de Governador Valadares, Helenice encontrou em Mato Grosso o cenário onde sua vocação floresceu. Mas foi em Castanheira, no noroeste do estado, que sua história ganhou contornos especiais. Ali, no início dos anos 2000, ao assumir a docência na Escola Estadual Maria Quitéria, ela consolidou não apenas sua carreira, mas também seu compromisso com a transformação social por meio da educação.
A chegada ao município, no final de 1999, foi motivada pela missão pastoral do esposo, o reverendo Jorge Marcos Roque de Faria — hoje advogado em Sinop — que à época liderava a Igreja Presbiteriana do Brasil em Castanheira. Foi nesse contexto de fé, serviço e desafios que Helenice começou a escrever um dos capítulos mais marcantes de sua vida.
De origem humilde, filha de Joaquim Joviano da Silva — mecânico que se tornou pastor da Assembleia de Deus — Helenice cresceu sob a influência da fé e da valorização da educação. Mulher negra, ela nunca se furtou a enfrentar as barreiras impostas por uma sociedade marcada por desigualdades raciais. Pelo contrário: fez de sua identidade uma bandeira de luta e conscientização.
Em Castanheira, além do trabalho em sala de aula, viveu momentos pessoais significativos — foi ali que iniciou a ampliação de sua família, deixando a cidade, em 2001, grávida de seu primeiro filho. A trajetória seguiria por cidades como Juara e Peixoto de Azevedo, até se fixar em Sinop, onde reside atualmente.
Com uma carreira construída com rigor acadêmico e sensibilidade social, Helenice graduou-se em Letras, tornou-se Mestra pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e Doutora em Linguística pela Universidade de Brasília. Sua atuação se estende do ensino básico ao superior, com forte presença na formação de professores e na pesquisa em linguagem, identidade e educação.
Mas sua contribuição vai além da academia. Escritora, palestrante e produtora de conteúdo, ela criou o canal “Palavras em Movimento”, onde promove debates sobre racismo linguístico, identidade negra e educação crítica — temas que, segundo ela, ainda carecem de aprofundamento, especialmente em regiões como Mato Grosso.
“Tenho o privilégio de dizer que sou negra, que tenho uma família negra”, afirma Helenice, ao destacar a importância da valorização das raízes e da construção de uma consciência racial crítica no ambiente educacional.
Autora de diversas obras literárias e organizadora de coletâneas acadêmicas, ela, que hoje atua na Escola Estadual Militar Tiradentes, em Sinop, também se dedica à ampliação da literatura negra nas escolas, contribuindo para um cenário educacional mais inclusivo e representativo.
A homenagem da SEDUC, que celebra 25 anos de dedicação, simboliza mais do que reconhecimento institucional. Representa a consolidação de uma trajetória que começou com passos firmes em cidades pequenas como Castanheira, mas que hoje ecoa em todo o estado — e além dele.
Helenice é, em essência, um testemunho vivo de que a educação, quando aliada à fé, identidade e propósito, tem o poder de transformar não apenas indivíduos, mas toda uma sociedade.
Acleide Rios Guimarães
Helenice,colega de trabalho,irmã na fé e amiga querida de sempre...