Relato de Zilda Stangherlin dimensiona as lutas iniciais no pequeno e querido município do noroeste de Mato Grosso.
Talvez, ao pisar pela primeira vez na balsa do “Seo” Elizeu — seu cunhado — rumo a uma terra ainda desconhecida, cercada por matas densas e comunidades indígenas que até então só vira nos filmes, a catarinense Zilda Stangherlin não imaginasse, no início dos anos 80 do século passado, que se tornaria parte fundamental dos primeiros avanços de Castanheira. Muito menos que, anos depois, escreveria seu nome na história como prefeita por duas gestões.
Entre tantas conquistas, há uma que brilha com intensidade especial em sua memória: a chegada da energia elétrica. Aos mais próximos, ela costuma dizer que esse foi um dos dias mais felizes de sua vida, num projeto que demorou seis meses para ser consolidado.
Antes disso, no entanto, o cenário era outro. O pequeno vilarejo vivia sob a luz limitada de quatro motores, funcionando com racionamento rigoroso. Por determinação da antiga CEMAT, a energia era permitida apenas das 6h às 22h. Depois disso, a escuridão tomava conta das ruas e das casas.
Mas Dona Zilda queria mais. Sonhava com uma cidade iluminada — não apenas pela energia, mas pelo progresso. E, movida por esse desejo, ousava ir além das regras. Em momentos de dor, como na morte de algum morador, ela não aceitava que a despedida acontecesse na escuridão. Com recursos escassos, providenciava óleo e mantinha os motores funcionando noite adentro. “Nesses casos, eu não admitia a escuridão”, relembra.
Havia também os sábados, quando a luz resistia um pouco mais, até a 1h da madrugada. Era o suficiente para os mais jovens aproveitarem suas festas, ainda que sempre atentos ao inevitável anúncio: “vamos embora, porque as luzes vão se apagar.
Esses limites ajudam a entender por que julho de 1989 se tornou um marco inesquecível. Foi quando a energia elétrica finalmente chegou de forma definitiva a Castanheira — apenas um ano após a emancipação do município. À frente do governo estadual estava Carlos Bezerra, parceiro importante nessa conquista que consolidou um vínculo duradouro.
A luz que naquele dia se acendeu não iluminou apenas casas e ruas — iluminou sonhos, abriu caminhos e marcou o início de uma nova história. E talvez seja possível resumir essa trajetória nas palavras de Albert Einstein: "No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade." Em Castanheira, foi exatamente assim. Onde antes havia escuridão e limites, Zilda ajudou a acender possibilidades que até hoje continuam a brilhar.