Homem de valores e costumes cada vez mais raros, Antônio Pires manteve, enquanto teve forças, o hábito de cavalgar e cuidar do gado.
“A morte pode interromper uma presença, mas não apaga os exemplos deixados por uma vida.”
Antônio Ferreira da Silva, o Antônio Pires, como foi conhecido ao longo de décadas, será lembrado para sempre quando se pensar na história de Castanheira. Sua partida deixa um vazio profundo entre familiares e amigos, mas também preserva uma trajetória marcada pelo trabalho, pela simplicidade, pela generosidade e pelos valores que ajudaram a construir a identidade de uma geração de pioneiros.
Na história de Castanheira, seu nome ocupa lugar entre os pioneiros. Os familiares se estabeleceram na região ainda no final da década de 1970, como recorda a professora Degna Hipólito. E, além da história construída ao longo dos anos, Antônio Pires deixa uma grande família: são sete filhos e 21 netos. Curiosamente, para aqueles que apreciam os números e suas coincidências, ele próprio era egresso de uma família de sete irmãos. Os bisnetos, por enquanto, fogem da soma relacionada ao chamado número perfeito: são 19.
É principalmente na simplicidade da vida cotidiana de Antônio Pires encontra uma das maiores marcas. Homem de valores e costumes cada vez mais raros, manteve, enquanto teve forças, o hábito de cavalgar e cuidar do gado. Era no ambiente rural que se sentia verdadeiramente em casa. Sua vida esteve ligada às lidas do campo, excetuando-se o período em que manteve uma Serraria na Fazenda 3 Corações — nome que também remetia às suas origens, em Minas Gerais, terra onde nasceu há 82 anos. Nos últimos tempos, vivia em sua propriedade rural, localizada no 3º Assentamento, no Vale do Seringal.
No campo também permanecerá uma das imagens mais vivas de sua memória: Antônio Pires no “mangueiro”, ainda antes do nascer do sol, tirando leite à moda antiga e, depois, tomando-o com café, ali mesmo, numa pequena caneca. Uma cena simples, mas carregada de significado — dessas que ainda podem ser encontradas em algumas propriedades rurais e que ajudam a contar a história de um modo de vida.
Entre as muitas recordações guardadas pela família, estão também os pequenos momentos que o tempo transforma em grandes memórias. Paola e Leigna, residentes em Juína, lembram com carinho de um costume inesquecível do avô: reuni-los para comer “nozinho” de queijo.
— “Era muito bom!” — recordam.
Para as netas, o avô era “um homem simples, de alma nobre e extremamente bondoso”. E, entre tantas qualidades, uma se destacava de maneira especial: a caridade.
A filha, Degna, faz questão de lembrar que o pai era capaz de tirar da própria boca para ajudar alguém, destacando também sua prática de distribuir leite entre pessoas próximas. Gestos como esse, embora realizados sem alarde, revelam muito sobre o homem que foi e sobre os valores que cultivou durante toda a vida.
Por essas e tantas outras razões, Seo Antônio Pires, que faleceu por volta das 7h30 desta sexta-feira, no Hospital São Lucas, em Juína, já tem seu nome inserido na história de Castanheira. Agora, ficam as lembranças de um pioneiro, homem do campo, pai, avô e bisavô; de alguém que encontrou nas coisas simples da vida o seu modo de existir e que, por meio do trabalho e da bondade, deixou marcas que o tempo não apaga.
O eterno companheiro de Dona Hilda Hipólita da Silva será sepultado neste sábado, às 9 horas, após as últimas despedidas na Casa da Saudade, onde está sendo velado.
À família e aos amigos, fica a dor inevitável da ausência. Mas fica também o consolo de uma história construída, de uma família que permanece e de um legado que continuará sendo contado. Porque alguns homens partem, mas não desaparecem. Permanecem nos lugares por onde passaram, nas histórias que ajudaram a construir, nos gestos que ensinaram e, sobretudo, na saudade daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.