Daniel Francisco Aparecido, o Nanico, morreu nesta quinta-feira, às 11h40, no Hospital São Lucas, em Juína, onde estava internado na UTI.
Havia um tempo em que o barulho de uma máquina de escrever fazia parte da paisagem dos escritórios públicos. O som seco das teclas, uma após outra, e, de vez em quando, o movimento firme da alavanca que fazia o carro retornar ao início da linha.
Daniel Francisco Aparecido conhecia bem esse som. Conhecia tanto que era capaz de datilografar sem olhar para o teclado. Para quem começava, havia uma espécie de ritual: “a, s, d, f, g” com a mão esquerda; “h, j, k, l, ç” com a direita. Depois, era ganhar velocidade. Nanico, porém, já havia deixado essa fase para trás fazia muito tempo. Máquinas como Olivetti e Remington eram suas ferramentas. E ele sabia usá-las como poucos.
Mas Daniel, ou simplesmente Nanico, como ficou conhecido, foi muito mais do que um homem diante de uma máquina de escrever. Natural de Brasilândia do Sul, no Paraná, chegou a Juína nos primeiros tempos do município. No final dos anos 1970, na administração de Orlando Pereira, foi contador e responsável pelo setor financeiro. Mais tarde, a história o levaria a Castanheira, onde passou por diferentes funções no serviço público.
Foi como Secretário de Administração, na gestão do médico Jorge Arcos, que sua eficiência ganhou destaque. E daquela convivência profissional nasceu também uma amizade que Nanico guardaria com particular fidelidade. Jorge Arcos era, para ele, mais do que o prefeito a quem servia: era um amigo.
Havia ainda o Nanico das horas livres, como o pescador que não precisava de grandes rios. Um “corguinho” já podia ser suficiente para uma boa pescaria. E se voltasse para casa carregando uma traíra — ou algumas delas — havia motivo para satisfação. Havia o torcedor do Santos, daqueles que não costumavam perder um jogo. Havia o homem das caminhadas. E havia também aquele que apreciava um bom pudim.
São detalhes pequenos diante de uma vida inteira. Mas talvez sejam justamente os detalhes que melhor sobrevivam à partida de alguém.
Nanico morreu nesta quinta-feira, às 11h40, no Hospital São Lucas, em Juína, onde estava internado na UTI. Nos seus últimos dias, confessou ter medo da morte e de ficar sozinho. Não há nada de estranho nisso. Talvez poucas coisas sejam tão humanas quanto esse medo diante do desconhecido. A morte, quando se aproxima, reduz as diferenças entre todos nós.
Mas Nanico não ficou sozinho. O sobrinho Edson permaneceu por perto e guardou dele a imagem de um “homem carinhoso e amoroso”. Na despedida, outro sobrinho, Geraldo Ferreira, o definiu como um “homem gentil e honesto”. Ao redor deles, familiares e amigos pareciam confirmar, no silêncio, aquelas palavras.
De uma família de nove irmãos, três dos quais partiram antes dele, Nanico deixa dois filhos e dois netos. E deixa também aquilo que não cabe em documento, certidão ou fotografia: lembranças.
Há uma frase atribuída ao escritor francês Marcel Proust que diz que “as lembranças não são as chaves do passado, mas do futuro”. Talvez seja assim. Porque a morte encerra uma presença, mas não consegue apagar tudo o que foi vivido. Permanecem as histórias contadas pelos familiares, as lembranças dos amigos, os lugares por onde alguém passou e até os pequenos hábitos que, depois da partida, ganham outro significado.
Um dia, provavelmente, alguém ainda lembrará de Nanico ao encontrar uma velha máquina de escrever. Talvez aperte uma tecla. E, por um instante, aquele som seco de uma Olivetti ou de uma Remington poderá trazer de volta a imagem de um homem que sabia escrever sem olhar. Depois virá o silêncio. Mas não será o silêncio do esquecimento. Será apenas aquele breve silêncio que existe entre uma história e outra.
Porque algumas pessoas partem.
As histórias que elas deixaram, não.